Ele
Estremeceu quando a viu chegando, já se passara um ano desde a última vez, como estava linda. Ela se aproxima devagar enquanto na cabeça dele havia uma confusão de pensamentos e lembranças. Reparou que usava um vestido, lembrou que nunca a vira usando vestidos. Ela mudara? Tentou ver em si algum sinal de mudança que ela também pudesse perceber, não encontrou. Ela chegou, sorriu e ele estremeceu novamente. Abraçou-a, uma amiga. Não era assim que se abraçavam antes, mas o tempo havia reduzido a intimidade. O cheiro dela ainda era o mesmo. Quis beijá-la, mas não tentou. Sentaram-se numa mesa de bar, conversaram amenidades e ele estremecia a cada sorriso dela. Como aquele sorriso ainda mexia com ele! Ele sentia aumentar o desejo de beijá-la e abraçá-la com antes. Ela não lhe daria oportunidade, era ali uma amiga, uma irmã. Como conseguia agir assim, depois de tudo o que viveram? Depois de dizer que o amava? Teria sido verdadeiro esse amor? Teria mesmo existido amor? Não teve coragem de perguntar. Só conseguiu segurar-lhe a mão e olhá-la nos olhos, ela sorriu, ele estremeceu. Despediram-se. Ele ficou olhando ela ir devagar pela rua. Quis gritar, correr atrás dela, dizer que a amava. Permaneceu imóvel. Ela virou a esquina e ele teve a certeza de que não a veria de novo.
Ela
Ela o viu de longe. Achou-o um pouco mais magro, mas ainda tinha o mesmo mistério e charme de sempre. Aproximou-se devagar para poder observá-lo melhor. Lembrou que ele odiava ser observado, ficava irritado e ela achava graça disso. Chegou e abraçou-o, um abraço demorado, com saudade. Ele trocou de perfume, esse é um pouco cítrico, mas bom também, ele ainda cheira bem. Ele sorria meio nervoso, meio sem graça, percebeu certo desconforto nele, não comentou nada. Talvez não tenha sido uma boa idéia esse encontro depois de tanto tempo. Sentaram-se numa mesa de bar. Conversaram algumas bobagens, tudo superficial demais. Ela lembrou que havia dito que o amava, mas não tinha sido levada muito a sério, ele não queria nada sério naquela época e ela tinha ficado bastante magoada com isso. Ficaram no bar umas duas horas e em alguns momentos ela o olhou como antes, mas ele talvez nem tenha percebido. Despediram-se sem nenhuma intimidade, foram ali amigos, colegas talvez. Sentiu vontade de dizer que ainda o amava, mas agora já não tinha certeza, quis beijá-lo, lembrou do gosto do seu beijo e de como era bom. Não disse nada, ele provavelmente não tinha mudado de idéia sobre relacionamentos e sentimentos. Ela se levantou e foi embora pela mesma calçada em que viera, pensando em como tinha sido bom o que viveram juntos, mas agora já não tinha mais importância. Não se encontrariam novamente, teve certeza que o fim era mesmo definitivo.