Há algum tempo recebi uma barra de um dos meus chocolates preferidos e na tentativa de fazer com que ela durasse mais, a dividi em pequenos pedaços e os escondi em diferentes lugares.
Os primeiros pedaços estavam deliciosos e foram saboreados com prazer. Mas os pedaços que eu vinha comendo ultimamente já não estavam tão bons, chegaram até a me causar uma leve intoxicação, um certo desarranjo emocional e estrutural.
E quando desembrulhei o último pedaço me dei conta de que ele já não prestava mais, estava estragado, rançoso, impróprio para o consumo. Percebi que se eu insistisse em comer iria me sentir muito mal.
Passei tempo demais guardando o tal chocolate e me esqueci que as coisas estragam, perdem o sabor e a validade. Do meu chocolate preferido não pude degustar o último pedaço.
Justamente o último pedaço, aquele que guardamos porque deve ser o mais gostoso, o que iremos comer com o maior prazer e com a maior tristeza, porque sabemos que é o fim, que depois da última mordida tudo estará acabado e restarão apenas recordações.
Meu erro foi o de não perceber que esse era um daqueles tipos de chocolate que se deve consumir instantaneamente, devorar com a gula e a insensatez necessárias para matar de uma só vez todos os desejos. Por isso, desperdicei tempo e sentimentos.
Fiquei imensamente decepcionada ao descobrir tarde demais que guardei algo que não deveria, que eu podia ter comido tudo antes, até o fim, ter me lambuzado com o tal chocolate em uma única dose.
O último pedaço do meu chocolate preferido estava ruim e tive de jogá-lo fora, abri mão do prazer da última mordida e senti a dor de me desfazer de algo que ainda me inspirava desejo, algo em que eu ainda estava tão apegada porque havia sido tão bom e gostoso, mas que ali naquele momento era só lixo.
O chocolate se foi e não sei quando encontrarei outra barra, talvez leve bastante tempo até que aconteça de novo.
Por enquanto, volto a seguir minha dieta normal, sem chocolate, retomando a posição de senhora de mim e abandonando a de escrava de um desejo inconsequente por poucos e pequenos pedaços de pecados escondidos.
Interessante crônica. Já guardei como “intocáveis”alguns “chocolates” que recebi pela vida e no final mal pude saboreá-los, mudou o gosto: deles e sobretudo o meu. Descobri que a validade ( de tudo) quem determina sou eu, mas atualmente devoro com ânsia todos os chocolates que a vida me oferece. Um abraço!
Muitas vezes, guardei a caixa inteira para depois… nem pude sentir o gostinho de uma barra antes da oportunidade de desfrutar os chocolates desaparecer.
Belo texto. escrito com sensibilidade. Nao guardo chocolates para serem comidos depois. Muitas vezes deixo-os passar incólumes, etando ao alcance de meus ávidos dedos. Nao sei o que é pior…
Tenho que comentar. Sua crônica metáfora alegoria bateu no ponto exato. O desejo e o mofo de algo já estragado. Brilhante.
Caralho, ée por isso que eu gosto mais de cerveja, me parece mais difícil de fazer analogias, tcom excessão da cerveja ficando choca, isso seria interessante rsrsrsrs abraço